Dr Raul Manhães de Castro fala sobre o reconhecimento da Área da Nutrição pelo CNPQ
*Nutrição: o reconhecimento de uma ciência*
Raul Manhães de Castro
Professor Emérito da Universidade Federal de Pernambuco
Professor Titular Aposentado do Departamento de Nutrição
*Uma conquista histórica e epistemológica*
Há conquistas institucionais que ultrapassam a dimensão administrativa. Elas representam o momento em que uma comunidade científica consegue fazer coincidir aquilo que já é na realidade com o lugar que passa a ocupar formalmente na organização da ciência. O reconhecimento da Nutrição como área própria na árvore do conhecimento do CNPq e a constituição de um espaço de assessoramento específico pertencem, a meu ver, a essa categoria. Depois de uma longa caminhada, CAPES e CNPq passam a reconhecer institucionalmente algo que a história da ciência brasileira já demonstrava: a Nutrição constitui um campo científico com identidade própria.
Não se trata de uma vitória contra a Saúde Coletiva, a Medicina, a Fisiologia, a Bioquímica, a Ciência dos Alimentos ou qualquer outra área com a qual mantemos relações profundas. Ao contrário: a Nutrição nasceu e cresceu precisamente nessas fronteiras. Mas uma ciência pode ser profundamente interdisciplinar sem deixar de possuir identidade. Talvez esteja aí o fundamento epistemológico mais importante dessa conquista.
*O alimento, o corpo e a sociedade*
A Nutrição ocupa uma posição singular entre as ciências porque seu objeto atravessa diferentes níveis de organização da realidade. Investiga nutrientes e moléculas, células, tecidos, metabolismo e fisiologia, mas não termina no organismo. Investiga o indivíduo, mas precisa compreender a família, a comunidade e a população. Investiga o alimento e, inevitavelmente, encontra a agricultura, a indústria, a cultura, a economia, o ambiente, as desigualdades, as políticas públicas e as relações de poder.
Seu objeto científico encontra-se justamente nas relações entre alimento, organismo, ambiente e sociedade. Por isso, reduzi-la à Medicina, à Bioquímica, à Fisiologia, à Saúde Coletiva ou à Ciência e Tecnologia de Alimentos seria tomar uma parte pelo todo. A Nutrição construiu sua identidade porque nenhuma dessas disciplinas, isoladamente, consegue responder às perguntas que ela formula. Isso não representa fragilidade epistemológica. Representa sua complexidade.
*Uma ciência construída durante séculos*
A história dessa ciência é muito anterior ao aparecimento da palavra Nutrição como designação de um campo acadêmico organizado. Quando Lavoisier, no final do século XVIII, relacionou respiração, produção de calor e metabolismo, começou a retirar a alimentação do domínio predominantemente empírico e a inseri-la na ciência experimental. Durante o século XIX, os avanços da química e da fisiologia permitiram compreender progressivamente proteínas, gorduras, carboidratos e o metabolismo energético. Claude Bernard e a fisiologia experimental ajudaram a construir uma nova maneira de pensar a relação entre organismo e meio.
No início do século XX, a descoberta das vitaminas mostrou algo extraordinário: pequenas quantidades de determinadas substâncias poderiam decidir entre saúde e doença e, em determinadas circunstâncias, entre vida e morte. Mas a Nutrição não permaneceu como ciência dos nutrientes. Tornou-se cada vez mais evidente que compreender a alimentação humana exigia compreender também o mundo no qual os seres humanos produzem, distribuem, escolhem e consomem seus alimentos. É nesse ponto que a contribuição brasileira adquire uma dimensão extraordinária.
*Josué de Castro e uma ruptura no pensamento sobre a fome*
Poucos intelectuais brasileiros compreenderam isso tão profundamente quanto Josué de Castro. Com Geografia da Fome, em 1946, e Geopolítica da Fome, em 1951, ele ajudou a realizar uma transformação epistemológica fundamental. A fome deixava de ser interpretada simplesmente como consequência inevitável da natureza, do clima, da insuficiência de alimentos ou de alguma fatalidade histórica. Passava a ser compreendida também como produto da organização das sociedades. Renda, terra, trabalho, produção, distribuição de alimentos, desigualdade e poder entravam definitivamente na explicação do fenômeno nutricional.
Isso mudou a pergunta. Já não bastava saber o que a ausência de determinado nutriente provoca no organismo. Era necessário perguntar também por que determinados grupos humanos não têm acesso aos alimentos de que necessitam. Essas duas perguntas pertencem à Nutrição. E sua coexistência revela a extraordinária amplitude epistemológica da área.
*Pernambuco e a construção de uma escola de Nutrição*
Essa história tem para nós, pernambucanos, um significado ainda mais particular. Em 1956, Nelson Ferreira de Castro Chaves criou, na então Universidade do Recife, o Instituto de Fisiologia e Nutrição. Em 1957, surgiu o Curso de Nutricionistas. Ali se consolidaria uma escola científica marcada pela capacidade de transitar entre diferentes níveis do fenômeno nutricional.
Nelson Chaves, meu queridíssimo professor, compreendeu que a desnutrição nordestina precisava ser investigada simultaneamente como fenômeno fisiológico, experimental, clínico e populacional. Ao seu redor formaram-se pesquisadores que dariam contribuições fundamentais à Nutrição brasileira. Naíde Teodósio, minha saudosa chefe e inspiração, aprofundou uma tradição de Fisiologia da Nutrição e de investigação experimental que antecipava perguntas que décadas depois reapareceriam sob novas linguagens: plasticidade fenotípica, programação do desenvolvimento, relações entre ambiente precoce e consequências tardias sobre a saúde. Malaquias Batista Filho, meu antigo colega de Departamento, ajudaria a construir outra vertente dessa tradição, relacionando epidemiologia nutricional, condições sociais, transição nutricional e políticas públicas.
Essas trajetórias não representam Nutrições diferentes. Representam diferentes escalas de observação do mesmo fenômeno. Da molécula à sociedade. Da célula à população. Do metabolismo à política pública.
*A Nutrição muda porque o mundo muda*
Talvez poucas áreas tenham sido obrigadas a transformar tão profundamente suas perguntas em apenas algumas décadas. Durante grande parte do século XX, o enfrentamento da fome, da desnutrição energético-proteica e das deficiências de nutrientes ocupou posição central. Esses problemas não desapareceram, mas a eles se acrescentaram obesidade, diabetes, doenças cardiovasculares e outras doenças crônicas relacionadas à alimentação. Passamos a conviver com uma realidade aparentemente contraditória: carência e excesso podem coexistir numa mesma sociedade, numa mesma família e até no mesmo indivíduo. A fome mudou de rosto. E a Nutrição precisou mudar suas perguntas.
Hoje estudamos microbiota, metabolismo, nutrigenômica, epigenética, comportamento alimentar, epidemiologia nutricional, obesidade, segurança alimentar, processamento dos alimentos, sistemas alimentares, sustentabilidade, desigualdades e políticas públicas. A perspectiva das Origens Desenvolvimentistas da Saúde e da Doença — DOHaD — reforçou algo que a tradição experimental da Nutrição já ajudava a revelar: exposições nutricionais em períodos críticos do desenvolvimento podem produzir consequências biológicas que somente se manifestarão muitos anos depois.
O alimento possui, portanto, uma história. E o corpo também. Aquilo que acontece durante a gestação, a lactação, a infância e outros períodos sensíveis pode permanecer biologicamente inscrito no organismo. A Nutrição passou, assim, a estudar não apenas diferentes escalas do espaço — molécula, célula, organismo, população e sociedade —, mas também diferentes escalas do tempo.
*Uma ciência que não cabe numa única ciência*
Sua autonomia científica não deve ser confundida com isolamento disciplinar. A Nutrição necessita da Bioquímica, da Fisiologia, da Medicina, da Epidemiologia, das Ciências Sociais, da Economia, da Ciência dos Alimentos, da Agricultura e das Ciências Ambientais. Necessitar dessas ciências, porém, não significa pertencer integralmente a nenhuma delas.
Interdisciplinaridade não é ausência de identidade. Ao contrário: relações interdisciplinares verdadeiramente fecundas dependem de campos capazes de reconhecer seus objetos, suas perguntas e suas tradições. A autonomia da Nutrição não empobrece suas interfaces. Fortalece-as.
*Da construção científica ao reconhecimento institucional*
No Brasil, o desenvolvimento institucional acompanhou, nem sempre na mesma velocidade, esse amadurecimento científico. A pós-graduação teve papel decisivo. Programas foram criados, mestres e doutores foram formados, grupos de pesquisa se multiplicaram e uma comunidade nacional de pesquisadores adquiriu massa crítica. A organização do Fórum Nacional de Coordenadores de Programas de Pós-Graduação em Alimentação e Nutrição foi parte importante desse processo. Tive a felicidade de participar dessa história e de coordenar, no Recife, seu segundo encontro.
A mobilização produziu uma conquista fundamental: em 2011, a CAPES criou a Área de Nutrição. Aquilo representou muito mais que uma reorganização burocrática. Significava reconhecer que a pós-graduação brasileira em Nutrição havia alcançado desenvolvimento suficiente para possuir critérios de avaliação, representação e planejamento adequados às características de sua comunidade científica.
Mas permanecia uma assimetria. Enquanto a CAPES reconhecia a autonomia da área, no CNPq a Nutrição continuava compartilhando o Comitê de Assessoramento com a Saúde Coletiva. Essa convivência produziu aprendizado e colaboração. As duas áreas possuem interfaces profundas: epidemiologia nutricional, segurança alimentar e nutricional, desigualdades, políticas públicas, promoção da saúde e sistemas alimentares são territórios de diálogo permanente. Colegas de ambas trabalharam para construir critérios capazes de respeitar tradições científicas distintas. E a própria experiência tornou evidente uma questão fundamental: dialogar não significa ser a mesma área. Reconhecer a identidade de uma não diminui a outra.
*Uma conquista coletiva*
A conquista agora alcançada no CNPq encerra uma etapa histórica e inicia outra. O reconhecimento da Nutrição como área própria na árvore do conhecimento e a existência de representação específica significam que as duas principais instituições brasileiras de avaliação, formação e fomento científico passam a reconhecer a identidade que nossa comunidade construiu ao longo de décadas.
Não recebemos uma identidade. Construímos uma identidade e conseguimos que ela fosse reconhecida. Há uma diferença enorme entre essas duas coisas.
Essa conquista pertence a muitas gerações. Aos pioneiros que investigaram a fome e a desnutrição quando esses problemas ainda eram frequentemente naturalizados. Aos que construíram cursos de graduação e pós-graduação, criaram laboratórios, organizaram sociedades científicas e fóruns, e desenvolveram as múltiplas vertentes que hoje constituem nosso campo. Pertence também aos colegas da Saúde Coletiva que compreenderam que autonomia institucional não significa divórcio intelectual. E pertence especialmente aos mais jovens, porque serão eles que darão conteúdo ao espaço que nossa geração ajudou a conquistar.
*A árvore e os galhos*
Talvez a própria metáfora da árvore do conhecimento possa finalmente ser tomada a sério. Uma árvore cresce porque se ramifica. Um novo galho não precisa negar o tronco do qual nasceu, nem competir com os outros galhos para justificar sua existência. Ele surge porque houve diferenciação, crescimento e maturação.
A história das ciências é também a história dessas diferenciações. A Fisiologia separou-se progressivamente de uma Medicina mais geral. A Bioquímica nasceu na fronteira entre Biologia e Química. A Saúde Coletiva brasileira construiu identidade própria a partir de múltiplas tradições. A Nutrição percorreu processo semelhante. Nasceu em muitas fronteiras, cresceu dialogando com muitas ciências e desenvolveu uma maneira própria de olhar para um dos fenômenos mais elementares e, paradoxalmente, mais complexos da existência: o ato de alimentar-se.
Comemos moléculas, mas não comemos apenas moléculas. Comemos alimentos. Comemos cultura. Comemos aquilo que nossa renda permite, aquilo que nossa terra produz e aquilo que o sistema alimentar disponibiliza. Comemos segundo nossa história, nossas relações sociais e nossas condições de vida. E aquilo que comemos transforma nosso organismo, participa de nosso desenvolvimento, modifica riscos futuros de doença e pode deixar marcas que atravessam grande parte da vida.
Poucos objetos científicos exigem simultaneamente tantos níveis de compreensão. É por isso que a Nutrição é, por natureza, plural. E é precisamente por ser plural que necessita de identidade.
*Não é o fim de uma luta*
Depois de tantos anos envolvidos nessa discussão, poderíamos imaginar que a criação de uma área própria e de seu espaço de assessoramento representa um ponto final. Não representa. Instituições reconhecem campos científicos, mas são as comunidades científicas que lhes dão vida.
A partir de agora aumenta nossa responsabilidade. Precisaremos construir critérios de avaliação que respeitem a diversidade interna da Nutrição; evitar que uma de suas vertentes se apresente como se representasse o todo; reconhecer a excelência experimental, clínica, epidemiológica e social; preservar a interlocução com a Saúde Coletiva e com as demais áreas parceiras; formar novas gerações; e compreender as perguntas que inevitavelmente surgirão.
Talvez seja essa a parte mais bonita desta conquista. Durante muito tempo lutamos para que reconhecessem que existíamos como área. Agora precisaremos demonstrar, todos os dias, o que significa existir como área.
Aos 70 anos, depois de uma vida vivida entre a Medicina, a Fisiologia e a Nutrição, vejo essa conquista também com a perspectiva de quem recebeu uma herança e procurou, à sua maneira, transmiti-la. Conheci alguns dos que vieram antes. Fui aluno de alguns deles. Trabalhei com outros. Vi estudantes tornarem-se mestres, doutores, professores e orientadores. E hoje vejo outra geração assumir a tarefa de levar essa história adiante.
Por isso, talvez a palavra mais adequada não seja vitória. É legado.
De Josué de Castro a Nelson Chaves. De Naíde Teodósio a tantas mulheres e homens que construíram silenciosamente laboratórios, cursos, programas e grupos de pesquisa. Dos pioneiros aos estudantes que hoje começam sua iniciação científica. Da fome estudada no Nordeste dos anos 1950 aos desafios contemporâneos dos sistemas alimentares, da obesidade, das doenças crônicas, da sustentabilidade e das desigualdades.
Há um fio atravessando tudo isso. Mudaram as perguntas. Mudaram os métodos. Mudaram os instrumentos. Mudou o Brasil. Mudou a própria Nutrição. Mas permaneceu uma questão fundamental: como o alimento, o ambiente e a sociedade se inscrevem no corpo humano — e como o conhecimento produzido sobre essa relação pode contribuir para uma vida melhor?
É em torno dessa pergunta, continuamente reformulada, que uma comunidade científica se formou. É por causa dela que a Nutrição não pode ser reduzida a nenhuma das disciplinas que a constituíram. E é por tudo isso que sua presença própria na organização da ciência brasileira não representa uma concessão. Representa o reconhecimento institucional de uma realidade científica construída por gerações.
A árvore do conhecimento finalmente reconhece um de seus galhos. Cabe agora às novas gerações fazê-lo crescer.




